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sábado, setembro 24, 2011

Varanda aberta.Espaço. Noite enrolada em folhas de antenas e aromas,noite de bocas nubladas e brancas.Brilham constelações de lâmpadas através das nuvens.Escuto.Nem palavras em silêncio.
A voz é de um odor da sombra. Deixa-me tocar-te o rosto,o teu rosto de espaço.Vejo-te através das pálpebras.Toco as mãos aéreas e silenciosas que atravessam a folhagem.Vejo lábios rodeados de fogo.
Estou no circulo da distância e escrevo as palavras adormecidas no ar.


Hoje as palavras são de um poeta que tem prosa linda.
António Ramos Rosa
Foto do Flickr

terça-feira, janeiro 13, 2009

POEMA DUM FUNCIONÁRIO CANSADO



A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido
o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma só noite,comprida
num quarto só

António Ramos Rosa

quinta-feira, outubro 16, 2008

Uma Voz na Pedra



Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.

Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

António Ramos Rosa

sexta-feira, setembro 12, 2008

As Espirais do Silêncio



Quem ama a liberdade conhece que é idêntica a verdade e a não-verdade o ser e o vazio e por isso na sua celebração a metáfora expande-se na liberdade de ser a ténue sabedoria desse momento e só desse momento em que o arco cresce.Há então que procurar a chuva dessa nuvem ou desdizê-la não para o nosso olhar mas para um outro rosto de areia que cresce no vazio e poderá ser de pedra ou de ouro ou só de uma penugem O poema é o encontro destas duas faces de nenhuma substância quando no vazio do céu os anjos se diluem com as mãos despojadas

António Ramos Rosa