terça-feira, outubro 09, 2012


POEMA
Envelhecemos com as palavras ou elas
connosco
digo amor e já não corro precipitadamente
pela escadaria de pedra com enormes
anjos de facas sobre as nossas cabeças
que me levava ti nas manhãs em que o desejo
(a que evidentemente dávamos
outro nome mais brando ) 
e nos rebentava o corpo como o pólen
das árvores na primavera

e ainda não sabíamos sequer
que transportávamos em nós
a doença incurável das noites que não iriam ser as que esperávamos

já não sigo no teu corpo os sulcos
largados pelos meus dedos na hora apressada do regresso a casa
nem abafo na amurada de todas as partidas
o gesto com que não soube prender a tua fuga

digo amor e estão muito longe
as maneiras subtis de te levar escondido
entre cadernos e camélias e dilacerados sorrisos 
de fim de festa 

pior do que isso:

nem sequer preciso de dizer amor
para que ele se desfaça nos terrenos baldios
do meu sangue onde os teus passos
durante tantos anos
o procuraram

-- e ilumine as horas em que o eco da tua voz
traz consigo as espadas que os anjos de pedra
então nos apontavam

ALICE VIEIRA, do livro "O Que Dói Às Aves"


quarta-feira, outubro 03, 2012


















A estrada sempre tem várias curvas, umas vezes conseguimos contornar, outras com grande dificuldade para chegar a bom porto assim tem sido a estrada de todos nós nos últimos tempos. Sempre com o cuidado necessário para não despistar a mente, essa sim é a verdadeira sabedoria da vida.

Lisa

segunda-feira, outubro 01, 2012

Neste dia primeiro de um mês onde cheira a vindima e mosto,
o coração sente uma amarra e o grito amordaçado,
nem o cantar na vindima anima os corações tristes,
e maltratados, a alma de um povo
que gostava de cantar ao som da concertina
onde tudo era partilha até os olhares,
continua vazio e sem esperança,
onde no lagar da vida, cada toque 
é um sofrimento, sem alento para continuar.

Lisa
















terça-feira, setembro 25, 2012


Pátria
Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.



Sophia de Mello Breyner Andresen