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segunda-feira, novembro 03, 2008

A Onda



Era uma onda que crescera para lá do meio do mar
e mais se alçava em corpulência das ondas que tragava
pelo caminho. Era uma onda ávida.
Com ela rolavam búzios alucinados, estilhaços de
conchas, madeiros, plâncton, algas, o último alento dos
afogados... Era uma onda violenta.
A exaltação que trazia dos confins do horizonte nem
lhe dera para se interrogar sobre qual o desígnio do seu
destino. Era uma onda embriagada de vida.
Desfraldada em cachão, cavalgava para terra. A rojar-se
sobre os primeiros bancos de areia, esboçou enfim a
pergunta:
- Porquê?
Mas já não teve tempo de responder.

Antonio Torrado

quarta-feira, outubro 15, 2008

Aquele Amigo



Olha amigo!
Hoje vais ser meu confidente sabes,há muito muito tempo também te escrevi
De certo já nem lembras
E nem te podes lembrar,claro.
Afinal, tanto tempo já passou.O que te disse sem falar,nem bem já sei.
Mas não se muda tanto assim. E hoje,se calhar,vou-te falar do mesmo
É que ,e no fundo,o mundo não mudou.Pois não!mas como eu gostava que tivesse mesmo mudado.Afinal os homens crescem,são até alguém,mas continuam a ser maus,quem sabe piores ainda.Que naquele dia que contigo falei. E que agora eu entendo-os melhor.
vejo coisas que antes não via,no fundo até era feliz.naquela ilusão que antes tinha.Para que cresci então?Não,não nos podemos deixar definhar,teu estás velho,pior que eu até.Mas não te deixes abater.Sei que a tua vida tem sido linda.Tanto já viste,sentiste,sonhaste.Orgulha-te de ser o que és
Um banco de jardim

Manuel Rosa

terça-feira, julho 15, 2008

A Fábula do Vento



O que eu te quero contar não foi dito nem escrito na pele de nenhuma página. Ou foi dito e escrito milhares de vezes e milhares de vezes apagado pela própia palavra. Sem visão,no vão esquecimento,tento iniciar uma fábula do vento até à ondulação,até à transparência. Tenho na boca o sabor de um canto que é já o canto de um sabor aéreo. O meu desejo procura construir cálices incendiados,sílabas amorosas,hieroglifos de água e fogo. Não estou no centro mas na orla da distância,na frescura da soberana inteligência do mar.
Reconheço agora todas as qualidades do solêncio,da brancura e da luz e da sia móvel mas permanente equivalência. A interrogação mais pura levanta-se e resolve-se em mil ondas incessantes,nas volutas vertiginosas do vento


António Ramos Rosa

segunda-feira, julho 14, 2008

Ontem à Noite




Ontem à noite, depois da sua partida definitiva, fui para aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque, fui para ali onde fico sempre no mês de junho, esse mês que inaugura o Inverno. Tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral. Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, e depois disse para comigo: vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba. Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo, o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque. E depois comecei a escrever...


Marguerite Duras

quarta-feira, julho 09, 2008

A Espera do Vento




Espero. Espero o vento. Coloco-me na área aberta entre a areia e o sal. O meu desejo é pólen.,delírio da pedra,labirinto de folhas.É talvez a energia da cinza que me move. Escrevo com três vogais de água pura e quatro palavras de sol branco.
Um sinal desenhado na argila,uma minúscula aranha,uma pequena chama no solo,o tremor do ar,tudo indica que as palavras,entre o sono e o sol,se consumarão com a verde energia do desejo liberto

António Ramos Rosa

segunda-feira, julho 07, 2008

O Jardim do Corpo



Ninho de palavras escuras, rumor de folhas e de mãos pequenas,insectos de delicada chama,diminutos fulgores silenciosos. Entre confusas claridades verdes,na plena humidade, o fogo abre a flor do corpo,intacta e branca. Os astros acendem-se como animais que sobem a direcção do vento.
Esta é a morada ardente e sossegada,o obscuro jardim do corpo e das palavras lisas. Uma alegria de formas,de sons,de cores. A navegação luminosas pela árvore do corpo,pela sua água,pelo seu horizonte de lábios. O corpo abriu-se e multiplica-se num só corpo e estremece numa ampla respiração como folhagem solar.

António Ramos Rosa

quarta-feira, junho 18, 2008

É Dura a Luta



É dura a luta,o suor amargo,a esperança incerta? Sempre o mundo foi para os homens mais ou menos inimigo. Só,por isso,em o alargar vale a pena ser herói,mesmo contra a segurança,contra todo o heroísmo

Armindo Rodrigues