terça-feira, outubro 09, 2012
POEMA
Envelhecemos com as palavras ou elas
connosco
digo amor e já não corro precipitadamente
pela escadaria de pedra com enormes
anjos de facas sobre as nossas cabeças
que me levava ti nas manhãs em que o desejo
(a que evidentemente dávamos
outro nome mais brando )
e nos rebentava o corpo como o pólen
das árvores na primavera
e ainda não sabíamos sequer
que transportávamos em nós
a doença incurável das noites que não iriam ser as que esperávamos
já não sigo no teu corpo os sulcos
largados pelos meus dedos na hora apressada do regresso a casa
nem abafo na amurada de todas as partidas
o gesto com que não soube prender a tua fuga
digo amor e estão muito longe
as maneiras subtis de te levar escondido
entre cadernos e camélias e dilacerados sorrisos
de fim de festa
pior do que isso:
nem sequer preciso de dizer amor
para que ele se desfaça nos terrenos baldios
do meu sangue onde os teus passos
durante tantos anos
o procuraram
-- e ilumine as horas em que o eco da tua voz
traz consigo as espadas que os anjos de pedra
então nos apontavam
ALICE VIEIRA, do livro "O Que Dói Às Aves"

7 comentários:
Belíssima escolha!
Obrigada pela partilha.
Beijos.
Muito bem escolhido, este é um dos poemas que gosto muito da Alice Vieira!
Adorei minha amiga.
Se não visse o teu comentário no meu "folha seca", não me lembrava de vir aqui, depois fui ao meu cantinho e lá está o teu carinho, esta é a verdade amiga não consigo colocar o teu link no meu blog para estar actualizado.
Beijinho e uma flor
Hoje passo para deixar o meu beijinho e uma flor.
fica bem princesa.
Lindo poema, excelente escolha.
Beijinhos
Maria
Gosto imenso de Alice Vieira, e a escolha foi excelente!
Bjs
Querida continuo a ter o "MAR DE CHAMAS" do lado direito do meu blog, mas não actualiza quando publicas.
Boa semana querida
beijinho e uma flor
A Alice Vieira tem um encanto que em mim perdura sempre e o poema que escolheste é muito bonito.
Beijo amigo e boa semana (resto...)
Graça
Enviar um comentário