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terça-feira, outubro 18, 2011

Noite Transfigurada
Criança adormecida,ó minha noite,
noite perfeita e embalada
como as folhas,
noite transfigura,
ó noite mais pequena do que as fontes,
pura alucinação da madrugada
chegaste,
nem eu sei de que horizontes.
Hoje vens ao meu encontro
nimbada de astros,
alta e despida
de soluços e lágrimas e gritos
ó minha noite,namorada
de vagabundos e aflitos.
Chegaste,noite minha,
de pálpebras descidas;
leve no ar que respiramos,
nítida no ângulo das esquinas
_ó noite mais pequena do que a morte:
nas mãos abertas onde me fechaste
ponho os meus versos e a própria sorte.


Poesia de Eugénio de Andrade



sexta-feira, setembro 02, 2011


Procuro-te  - Procuro a ternura súbita, os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo, o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce, um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria. Oh, a carícia da terra,
a ...juventude suspensa, a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido. Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina as coisas mais simples: o pão e a água,
a cama e a mesa, os pequenos e dóceis animais, onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio. Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz. Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama, não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho. Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças, dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu e o mar é devassado pelas estrelas.
Porém eu procuro-te. Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama, com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

Eugénio de Andrade,in,palavras Interditas



segunda-feira, agosto 15, 2011

Caminha devagar:
desse lado o mar sobe ao coração.
Agora entra na casa,repara no silêncio,é quase branco.
Há muito tempo que ninguém se demorou a contemplar
os breves instrumentos do verão.
Pelo pátio rasteja ainda o sol.Canta na sombra
a cal, a voz acidulada.

Eugénio de Andrade


sexta-feira, julho 22, 2011

Estou sentado nos primeiros anos da minha vida,
o verão já começou,e a porosa sombra das
oliveiras abre-se à nudez do olhar.
Lá para o fim da tarde a poeira do rebanho
não deixará romper a lua
Quanto ao pastor,talvez um dia suba
com ele às colinas,e se aviste o mar.



















Agora as aves voltam,são nos ramos
altos a matéria
mais próxima dos anjos
ousarei eu tocar-lhes,
fazer delas o poema?















Hoje a poesia é dedicada a Eugénio de Andrade!

domingo, maio 25, 2008

Pequena Elegia Chamada Domingo



O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens.
mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios.)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas

Eugénio de Andrade