sexta-feira, outubro 29, 2010



Nada melhor que um pouco de poesia para descontrair no fim de semana que está perto.Tenho o cuidado que sempre que leio algo que gosto,neste caso poesia partilho com os amigos,hoje não vai fugir a regra.E como a vida deve ser vivida de pequenos gestos,que muitas vezes representam grandes coisas no coração.Este poema adoro,fala do silêncio sendo algo sublime...aqui vai e bom fim semana a todos.

Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa...

Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição

Tasso da Silveira

terça-feira, outubro 26, 2010


(foto google)

Baco

Andava por ali o Deus das uvas.
Por trás de cada cepa se ocultava.
Tinha os pés disfarçados em raízes
que prendiam a terra virilmente.
Tinha os olhos nos cachos reflectidos.
e a firmeza das parras acusava
que escondia seu sexo omnipotente.

Sebastião da Gama

quinta-feira, outubro 21, 2010



A Secreta Viagem

No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada...
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa...

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.
— Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!

David Mourão-Ferreira, in "A Secreta Viagem"

quinta-feira, outubro 14, 2010



Muitas são as pessoas que pela nossa vida se juntam,ou pelo simples momento se cruzarem com nós.Parece uma árvore com belos ramos e folhas,quando a primavera nos visita toda ela são rebentos,o Pai a Mãe,os irmãos.A árvore vai crescendo vem os conhecidos,os colegas da escola,mais tarde os do trabalho,até o simples conhecido que no mesmo café partilha o momento de chávena na mão.Tudo isto é um círculo que todos nós pisamos a cada dia.Mas por vezes o destino ou o caminho nos desliga de alguns,a nossa árvore da vida fica mais pobre,cada um parte para lugar diferente e no canto do olhar brota a lágrima da saudade.Com a chegada do Outono,a árvore parece triste e só,as folhas caiem,esperando de volta a primavera ou o verão,para nos cruzarmos com um amigo na praia que partilhamos juntos, e ficamos tão próximos que até lhe contamos um segredo.Assim se passa na árvore da nossa vida,que em cada ano se renova para despertar outros olhares e sentimentos.

Lisa