sexta-feira, fevereiro 26, 2010



Paisagens de Inverno

Ó meu coração, torna para trás.
Onde vais a correr, desatinado?
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou! o sol! Volvei, noites de paz.
Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido...
Ó meus olhos, cismai como os velhinhos.
Extintas primaveras evocai-as:
Já vai florir o pomar das maceiras.
Havemos de enfeitar os chapéus de maias.
Sossegai, esfriai, olhos febris.
E havemos de ir cantar nas derradeiras
Ladainhas...Doces vozes senis...

Passou o outono já, já torna o frio...
Outono de seu riso magoado.
llgido inverno! Oblíquo o sol, gelado...
O sol, e as águas límpidas do rio.
Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?
Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...
Onde ides a correr, melancolias?
E, refratadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...

Camilo Pessanha

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Cada dia que passa depois da tragédia que assolou a Madeira e sua gente, fico mais perplexa.Uns vem dizem que as vítimas foram tantas,depois vem outros e dizem ser diferente,agora pergunto quem fala verdade;depois dizem que nós os continentais é que não somos livres de expressão,eu continuo a dizer que somos.Se trata a todo gás do Funchal para turista ver,e as freguesias que ainda reclama ajuda,fica para quando.Se deve repartir o mar pelas aldeias,já dizia a minha avó,e penso que daqui a um ano ainda vamos ouvir,os mesmos a pedir ajuda.Até já se fala em festa das flores! Ainda não se enterraram os seus mortos,os seu governantes devem ter respeito pela dor humana. Eles ainda não tem condições para habitar,não tem comida nem roupas,e vejo os mesmos a se queixar de falta de ajuda?Será que as TV todas estão compradas...não acredito, e todas elas dizem o mesmo.Como já nos habituaram as loucuras será mais uma certamente.Ou brincadeira do Carnaval,como fazem alguns.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010



Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
era um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...
Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se,nem gritar
Nem aumentar nem sufocar o pranto...
Mar!
fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro,a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!
Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar
E foste tu depois que nos traíste!
mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!

Miguel Torga
Poemas Ibéricos

segunda-feira, fevereiro 22, 2010



Se Penso, Existo

Se penso, existo; se falo, existo para os outros, com os outros.
A necessidade é o lugar do encontro. Procuro os outros para me lembrar que existo. E existo, porque os outros me reconhecem como seu igual. Por isso, a minha vida é parte de outras vidas, como um sorriso é parte de uma alegria breve.
Breve é a vida e o seu rasto. A posteridade é apenas a memória acesa de uma vela efémera. Para que a memória não se apague, temos que nos dar uns aos outros, como elos de uma corrente ou pedras de uma catedral.
A necessidade de sobrevivência é o pão da fraternidade.
O futuro é uma construção colectiva.

António Arnaut