sexta-feira, fevereiro 21, 2014

O cipreste inclina-se em fina reverência
e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

A grande amendoeira consente que balancem
suas largas folhas transparentes ao sol.

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis,
os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.

Frontes rendadas de acácias palpitam inquietantemente
com o mesmo tremor das samambaias
debruçadas nos vasos.

Fremem os bambus sem sossego,
num insistente ritmo breve.

O vento é o mesmo:
mas sua resposta é diferente, em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros.

Como a escada e as colunas de pedra,
ela pertence agora a outro reino.
Se movimento secou também, num desenho inerte.
Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa.

O vento que percorre o jardim
pode subir e descer por seus galhos inúmeros:

ela não responderá mais nada,
hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante.


Cecilia Meireles

4 comentários:

Mona Lisa disse...

Magnífico poema de uma poetisa intemporal!

Belíssima partilha.

Beijinhos.

Maria Rodrigues disse...

Excelente escolha, que lindo poema.
Bom domingo
Beijinhos
Maria

Lilá(s) disse...

Um poema que me faz lembrar a primavera!
Bjs

Mar Arável disse...

Desfolham-se as cores

nos jardins

Bj