segunda-feira, setembro 30, 2013

Arte poética

Vai pois, poema, procura
a voz literal 
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?

Poema de Manuel António Pina.














2 comentários:

Mar Arável disse...

É preciso construir
a unidade na diferença

Mona Lisa disse...

Desconhecia este poema.

Obrigada pela partilha.

Beijinhos.