segunda-feira, setembro 30, 2013

Arte poética

Vai pois, poema, procura
a voz literal 
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?

Poema de Manuel António Pina.














sábado, setembro 21, 2013

Montes  e vales queimados morrendo aos poucos a solidão dos mais velhos.Vergados pela idade, sentem que as forças já são poucas para enfrentar a vida.Seus olhares se perdem na penumbra que a terra queimou, são poucos os jovens que pela serra habitam, fugiram da terra que nada lhes deu, somente o berço ficou guardado na recordação.
A pouca terra que não ficou queimada, já ninguém a cultiva, os braços fortes partiram a muito,o gado é pouco,somente o olhar se perde pelo cansaço da noite e dos dias que custam a passar,parecendo uma eternidade.Os velhos ficam a pensar, como seria bom todos voltarem,sorrisos de criança na escola da aldeia. Assim vão pensando na tristeza de ficar sós  e de ver os filhos partirem. Ficarão na soleira da porta onde o seu olhar já cansado se perde no horizonte, e na calçada contrafeita porque ainda não chegou por lá progresso e  dignidade, a casa de pedra e colmo ficará por lá, até que chegue novo verão e a volte a queimar, e onde a esperança ficará reduzida a cinzas.

Depois de algum cansaço e dor, apeteceu pegar na caneta e escrever o que senti ao olhar.


















domingo, setembro 08, 2013

Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos
dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

Cecília Meireles















Foto: carlafranco.files.wordpress.com

domingo, setembro 01, 2013

Setembro! 

Sabe a mar e saudade,dos sonhos que por lá ficaram, do sobrevoar e gritos de gaivotas, da areia que correu pelas mãos e fugiu entre os dedos. Dos amores que ficaram na praia, o por do sol a faina do mar, ele chegou com calor ainda. Esperamos que as noites fiquem mais serenas e apeteça aquele café ainda na esplanada saboreando a noite.

Lisa