terça-feira, novembro 29, 2011

Abraça-me

Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos. Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas. Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me com os teus antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade, essa soma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram. Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor. Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos, para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros pequeninos. 
Só essa água fará reconhecer o mais profundo, o mais intenso amor do universo, e eu quero que delem fiquem a saber até as estrelas mais antigas e brilhantes. 
Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais. 
Uma vez que nem sei se tu existes. 

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum' 

Neste dia especial um poema especial de um poeta que gosto muito.

sábado, novembro 26, 2011

Este Não-Futuro que a Gente Vive


Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros. 


Al Berto, in "Entrevista à revista Ler (1989)"
Foto:net

terça-feira, novembro 22, 2011

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...


Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


Alberto Caeiro

quinta-feira, novembro 17, 2011

Queria navegar num sonho de criança, refrescar os sonhos da minha ternura.Sentir a mão amiga da mãe, quando passa as mãos nos nossos cabelos.Descobrir a paisagem do mar da minha meninice, quando as águas molhavam os meus cabelos loiros. Então sim, navegaria num barco de papel aos sabor das ondas. Levaria comigo pouca coisa, lembranças amor e amizade! Na proa uma gaivota branca como o meu sonho, e lá longe quando um por de sol, que ilumina os sonhos e o mar, poder chegar até ele com a mão, e o tentar agarrar, e não mais o largar


 Lisa 17/11/2011



quinta-feira, novembro 10, 2011

Foi para ti 
que desfolhei a chuva 
para ti soltei o perfume da terra 
toquei no nada 
e para ti foi tudo 


Para ti criei todas as palavras 
e todas me faltaram 
no minuto em que talhei 
o sabor do sempre 


Para ti dei voz 
às minhas mãos 
abri os gomos do tempo 
assaltei o mundo 
e pensei que tudo estava em nós 
nesse doce engano 
de tudo sermos donos 
sem nada termos 
simplesmente porque era de noite 
e não dormíamos 
eu descia em teu peito 
para me procurar 
e antes que a escuridão 
nos cingisse a cintura 
ficávamos nos olhos 
vivendo de um só 
amando de uma só vida 


"Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"



sexta-feira, novembro 04, 2011

É bom sentir o abraço calmo e sereno
Aquele que me faz sorrir,como a brisa do mar
O vento na arvore em pleno outono
Sentir o cheiro das flores,o despertar da primavera
O calor do colo da mãe quando nos aconchega em seu corpo
Num forte  abraço onde  sinto a protecção,
ser gaivota em voo pelo oceano à procura
do sal e areia, na praia do meu contentamento

Lisa