sexta-feira, novembro 26, 2010


Saber Viver

Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais para nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser: Colo que acolhe,
Braço que envolve, palavra que conforta,
Silêncio que respeita, alegria que contagia,
Lágrima que corre, olhar que acaricia,
Desejo que sacia, amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela
Não seja nem curta, nem longa demais,
Mas que seja intensa, verdadeira, pura... Enquanto durar

Cora Coralina

terça-feira, novembro 23, 2010



Em uma Tarde de Outono

Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...

Olavo Bilac

segunda-feira, novembro 15, 2010



Ó castanheiros de folhas de ouro,
Carregados de ouriços que são ninhos
Onde as castanhas dormem como noivos!
Troncos abertos, Casas abertas,
Ao vosso abrigo Dormem os pobres,
Pegam no sono, Passam as noites
Quando cai neve!Peitos vazios,
Escancarados,
Sem nada dentro, Nem coração!
Dais lume, calor

E dais sustento para a mesa,
E dais o mais que eu não sei!...
Ó castanheiros de folhas de ouro,
Apenas sou vosso irmão
Em que a terra vos criou
E criou-me a mim também;
Em que vós ergueis os braços
Suplicantes para os céus
E eu também levanto os meus...

Ah! Castanheiros, mas eu
Grito e vós ficais calados!
Seremos, por isto só,

Irmãos? Seremos? Não sei:
Vós tendes roupas de rei,
Eu tenho roupas de Job;
Vós só gritais quando o vento
Vos abre a boca e fustiga:
Então ergueis um clamor...
— Não calo nunca no peito
A dor do meu sofrimento
E nunca chego a dize-la,
Nem há ninguém que me diga.

Ó castanheiros de folha de ouro,
Não,
Eu não sou vosso irmão!...

Branquinho da Fonseca

quarta-feira, novembro 10, 2010



Tome-se um poeta não castrado
Uma nuvem de sonho,uma flor.
Três gotas de amargura,um tom de fado
Uma veia sangrando de terror.
Nesta massa que ferve e se contorce
Verta-se a luz dum corpo de mulher
Duma pitada de morte se reforce
Que o amor do poeta assim requer

José Saramago

domingo, novembro 07, 2010



Manhã na Praia

Brasa de sol queimando o Horizonte
Espectativa ansiosa sobre o mar.
velas brancas,num sonho de aventura.
Sem limites ou leis a comandar

Gaivotas levianas como a brisa
Num voo alucinado pelo espaço,
Sem páraquedas,sem medir o abismo,
Prometendo-se às águas num abraço

Uma manhã exacta,loira,clara
Leque de palma aberto em esplendor
Onda de bronze,era o teu corpo eleito
Barcos de azul,teus olhos,meu amor.

Soledade Sumavielle

quarta-feira, novembro 03, 2010


No Fundo Aberto

Escrevo-te enquanto algo resvala, acaricia, foge
e eu procuro tocar-te com as sílabas do repouso
como se tocasse o vento ou só um pássaro ou uma folha.
Chegaste comigo ao fundo aberto sob um céu marinho,
sobre o qual se desenham as nuvens e as árvores.
Estamos na aurícola do coração do mundo.
O que perdemos ganhamo-lo na ondulação da terra.
Tudo o que queremos dizer sai dos lábios do ar
e é a felicidade da língua vegetal
ou a cabeça leve que se inclina para o oriente.
Ali tocamos um nó, uma sílaba verde, uma pedra de sangue
e um harmonioso astro se eleva como uma espádua fulgurante
enquanto um sopro fresco passa sobre as luzes e os lábios.

António Ramos Rosa

segunda-feira, novembro 01, 2010



Hoje pensei escrever só para ti.Mas eu faço isso muitas vezes,quando olho aquela estrela,que me guia e cintila ao longe parecendo guiar os meus passos.Quando à noite a olho,sinto o acariciar da tua mão no meu cabelo,teu colo,e o calor do teu abraço,assim estou eu no meu silêncio! E penso em ti,no teu rosto e sorrio,a pensar como seria hoje.Logo não te vejo,o céu está encoberto, te sentirei sempre a qualquer hora,a olhares para mim...Mas sempre estará presente no meu coração.

Lisa