terça-feira, janeiro 13, 2009

POEMA DUM FUNCIONÁRIO CANSADO



A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido
o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma só noite,comprida
num quarto só

António Ramos Rosa

13 comentários:

Laura disse...

Apesar de por pouco tempo, houve um tempo em que fui para fora, um mês, apenas um mês, num quarto só, e entendo o sentir do Poeta, um quarto só e com salário muito só (como o meu), uma vonta de deixar de ser exmplar e ser apenas mais um ser dos que têm sorte e nada fazem para a conseguir, mas o mundo magoa e somos todos uns sós
sós e desanimados quando a vida
nos volta as costas e nos deixa sós

sós no amor
sós na dor
sós no tempo que nem é tempo
é apenas mais um contratempo...

Beijinhos da laura que adora a ti...

Maria disse...

Muitoobrigada por este belo momento de poesia, Lisa. Adoro António Ramos Rosa...

Beijinhos

M@ disse...

Que boa música gosto muito de Nat King Cole, ás vezes ouço cá em casa.
Beijinhos
Manuela

Agulheta disse...

Laura! Este poema fala da necessidade que o poeta tem de estar só? até eu as vezes precisava quando vejo um mundo tão injusto,me apeteçe mandar tudo aquilo sítio,de gente que não liga nenhum a este país da treta,depois reclama.
Beijinho da(Lisa)

Agulheta disse...

Maria! Amigos nem dizem obrigado! se partilha e oferece o que se dá de coração,somos duas a gostar deste poeta...adoro.
Beijinho

Agulheta disse...

Manuela! Nat King Colle,foi dos cantores da minha geração,gosto bastante.
Beijinho da Lisa

Pico minha ilha disse...

Um funcionário cansado que trocou os dias pelas noites, tudo fez e agora só e cansado ninguém vê ali naquele quarto.Beijinho e um abraço quentinho que aqui está muito frio

Agulheta disse...

Salomé! quantos o farão já cansados sem nunca lhe darem valor.
Muito frio por aqui igual.
Beijinho da amiga Lisa

M@ disse...

--------/ ;;;; \ ____----- .;;.
--------|;(;;;-""-------`'-.,';;;;;\
---------\;'-------------------';;);/
--------/------------------------\;'
-------/------.;.-------.;.--------\ A amizade é uma grande
------|------;;o;;----;;o;;------| conquista, e mesmo que
------ ;----- '"-'`----`'-"'----- / estejamos perto ou longe
------/\-----------._. ---------/ presente ou não, a simples
-----;;;;;;_-----,_Y_,---- _.' manifestação de carinho
----/;;;;;;;\-`---.___.--- ';. e atenção mesmo que
---/|;;;;;;;;;.__.;;;.-------\\ seja através dos recadinhos
--; -\ ;;;;;;;;;;;;;;;;;;\------;\__--.;.dos blogs, já
--|-----';;;;;;;;;;=;;;;'-------|-__;;;;/ trazem grandes
--|-------`""`- .------._-----/;/;;\;;/ energias positivas
-/ ;------------/;;;;;;;-;/;;;;;;;/--|;/ em nosso dia.
-\_,\----------|;;;;;;;;;;;;;;;;;;|-|
------'-...----- ';;;;;;;;;;;;;;;;;;\/
Por isso,aqui estou eu!! Deixando um grande beijo e desejando-te: BOA NOITE
Manuela

Flor ♥ disse...

Que lindo poema, Elisa. Reflete muito a solidão dos grandes centros urbanos.

Quando puder, dá uma passadinha no Interlúdio... tem selinho prá você!

Beijos,
Flor ♥

http://interludioemflor.blogspot.com/

Agulheta disse...

Manuela! Agradeço a amizade aqui demonstrada.
Beijinho Lisa

Agulheta disse...

Flor.Pois já lá foi e recolhi o selinho,agradeço de coração a lembrança.
Beijinho da lisa

Ana disse...

Este grande poeta contemporâneo, que trabalhou no comércio, usa estes termos relacionados com o mesmo, neste extraordinário poema.
A foto escolhida para ilustrar a poesia está muito bonita de um banco vazio num dia de Outono.
Beijinhos grandes,
Ana Paula